a retomada das aulas presenciais

8 fatores que comprometem a retomada das aulas presenciais

Meses após o início da pandemia da Covid-19 no Brasil, a discussão acerca da retomada das aulas presenciais vem ganhando mais força. De um lado, há quem argumente que está na hora de as escolas reabrirem, até mesmo pelo longo período de tempo que já ficaram fechadas. De outro, existem muitas incertezas por parte de profissionais, estudantes e seus respectivos responsáveis sobre o momento certo para o retorno.

Todos concordam que, sim, é importante ter um plano de ação para que as instituições de ensino recebam fisicamente seus alunos. No entanto, o País e o mundo estão mesmo preparados para isso

É justamente o que vamos discutir neste artigo, apontando os principais fatores que comprometem a volta às salas de aula.

Veja também: Infográfico – A retomada das aulas pelo mundo durante a pandemia.

  1. Aumento de custos

A pandemia da Covid-19 é uma crise na saúde que atingiu diretamente a economia. Praticamente todos os segmentos foram afetados de alguma forma. As escolas, infelizmente, não fugiram à regra.

Não bastasse esse cenário desafiador, muitas vezes com perda de recursos por causa de cancelamentos de matrículas, a retomada das aulas presenciais pode aumentar ainda mais os gastos das instituições de ensino.

Isso porque, por mais que haja o retorno fisicamente, ele não será integral, ou seja, as aulas online ainda serão mantidas. São vários os modelos que podem ser adotados para a retomada, inclusive o de rodízio de alunos, e todos trazem seus desafios.

Os professores não conseguirão, por exemplo, gravarem a si mesmos e ainda darem as aulas presenciais. Assistentes serão necessários para isso, resultando em aumento de pessoal. Outro entrave diz respeito à qualidade da internet. Todas as escolas têm mesmo uma boa estrutura nesse sentido, para a transmissão das aulas ao vivo? Provavelmente não. Assim, serão ainda mais custos em um momento de crise.

Algo que pode ser feito para evitar esses tipos de problemas é a retomada das aulas somente para reforço e para aqueles estudantes que realmente precisam de um acompanhamento especial.

  1. Insegurança dos responsáveis pelos alunos

É inegável que escolas e responsáveis pelos estudantes precisam estar bem alinhados no que acreditam ser o melhor para os alunos. É papel da instituição de ensino não somente falar, mas mostrar como cuida de toda a comunidade e se preocupa com a sua segurança e bem-estar.

Se a retomada das aulas ocorrer antes do que deveria, será que as escolas realmente vão transmitir essa imagem? E mais: como as pessoas vão interpretar essa atitude?

Uma pesquisa realizada pelo Ibope Inteligência em São Paulo mostra que 63% dos entrevistados não são a favor do retorno às aulas presenciais; os que concordam somam 26%, enquanto 11% não argumentaram a favor de nenhum lado.

Embora seja um estudo local, ele reflete bem o pensamento de boa parte dos brasileiros, que têm, inclusive, dito que mesmo se as aulas voltarem a ser físicas, não permitirão que seus filhos as frequentem durante a pandemia. Não saber lidar com o desejo das famílias, principalmente num cenário de tantos medos e um período de crise, pode gerar resultados bastante negativos.

  1. Professores e médicos também discordam da retomada

Não são só alguns responsáveis pelos estudantes que são contra à retomada das aulas durante um período mais crítico da pandemia da Covid-19. Professores e médicos também têm se posicionado contrários a essa ideia.

Entre os principais argumentos para isso estão a falta de estrutura para o retorno, a possibilidade de contaminação, a ausência de viabilidade de fazer atividades recreativas para crianças, o risco de os pequenos transmitirem a doença para a família e amigos, entre outros.

Além disso, uma pesquisa realizada pela Nova Escola mostra que 57,6% dos diretores tanto de escolas públicas quanto de particulares acreditam que os professores não estão preparados para a retomada das aulas. Eles alegam, entre outras razões, as dificuldades de adaptação às regras de distanciamento e ao chamado novo normal e os impactos emocionais provocados pela quarentena.

  1. Pessoas atingidas além do ambiente escolar

Há quem defenda que a retomada das aulas pode ocorrer pelo fato de crianças e adolescentes dificilmente contraírem a forma mais pesada da Covid-19. No entanto, os que assim pensam se esquecem de outra questão: os mais jovens podem ser grandes transmissores.

De acordo com um estudo da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), a volta presencial às escolas é um grande perigo para nada menos do que 9,3 milhões de brasileiros que pertencem ao grupo de risco. Por mais que estejam fazendo o isolamento social corretamente, os estudantes que moram com eles poderão contaminá-los.

  1. Falta de medidas necessárias

A essa altura do texto, você pode estar pensando que a retomada das aulas, apesar de desafiadora, pode dar certo se forem tomadas todas as medidas sanitárias. No entanto, o Brasil está preparado para colocá-las em prática?

Vários estudos têm mostrado que pode ser seguro voltar quando a doença já está controlada, o que ainda não é o caso brasileiro.

Além disso, as pesquisas também revelam que é de suma importância que haja um sistema de testes e de rastreamento de contatos para saber, de fato, quais foram os transmissores da Covid-19. Isso não existe no País, sobretudo quando se trata de crianças, que dificilmente são testadas.

  1. Clima de medo nas escolas

A saúde física é muito importante, mas a mental também é. A retomada das aulas pode afetar as duas. Em países que já experimentaram esse retorno, há diversos relatos de insegurança não só por parte dos responsáveis pelos estudantes, mas relacionados às próprias crianças e adolescentes.

As histórias são várias e vão desde o medo de pegar em um papel contaminado, por exemplo, até algo mais ligado ao relacionamento com as outras pessoas. O fato de não saber se a professora está feliz ou brava, por ela estar de máscara, já tem mexido com as crianças.

  1. Possibilidade de novos surtos

Por mais que alguns locais considerem que já estão seguros,  tudo pode mudar rapidamente. O Brasil, aliás, pode aprender muito com os exemplos lá de fora.

No exterior, já foram registrados diversos surtos até em escolas que adotaram todas as medidas de segurança necessárias, como o distanciamento social e o uso de máscaras.

Em Seul, na Coreia do Sul, por exemplo, 200 instituições de ensino tiveram de ser fechadas por esse motivo, logo após reabrirem. Israel também registrou surtos nas escolas e 22 mil alunos e professores tiveram de ser colocados em quarentena.

  1. Presença de assintomáticos

Ao contrário das pessoas do grupo de risco e até de muitos adultos, as crianças costumam ser assintomáticas. Conforme um inquérito sorológico realizado em São Paulo, 70% dos pequenos que contraíram a Covid-19 não apresentaram sintomas.

Esse fato torna ainda mais difícil o controle da doença. Isso porque uma só criança pode transmitir o vírus para muitas outras pessoas, que também vão replicá-lo, podendo aumentar bastante a contaminação no País. Se há como identificar os casos, é possível isolá-los. Porém, sem conseguir fazer isso, os resultados poderão ser catastróficos.

A retomada das aulas presenciais, embora seja importante, oferece uma série de riscos para as crianças, adolescentes e para a população em geral. Nesse cenário, há soluções para que os estudos continuem virtualmente, sem perda da qualidade. Um exemplo disso é o uso de plataformas como o moodle.

Mais do que formar cidadãos, cabe às instituições de ensino cuidar e também mostrar à toda a comunidade a importância de prezar pela segurança e bem-estar de todos.